18 de fevereiro de 2010

Publicitárias, Publicidade, Atendimento, Planejamento: Entrevista Com Pedrina de Deus

O jornal O Povo, de Fortaleza, publica hoje uma entrevista com Pedrina de Deus*, Diretora de Planejamento da SG Propag e militante negra. Conheça as opiniões de Pedrina sobre a atuação das mulheres nas agências, a forma como ainda somos retratadas na publicidade e o que pensa do futuro do Atendimento e do Planejamento.


Da criação ao planejamento
por Bruno Cabral, especial para O POVO

O POVO - Em quais áreas as mulheres mais atuam na publicidade?
Pedrina de Deus - Nos mercados onde trabalhei (Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza) vê-se a presença da mulher predominantemente nas áreas de Atendimento e Mídia. Nos mercados do Rio de Janeiro e São Paulo há uma distribuição mais harmônica de gênero nas diversas funções de uma agência.

O POVO - E no mercado cearense?
Pedrina de Deus - No Ceará, essa relação nos parece ainda mais desigual quando observamos a quantidade de mulheres universitárias nos cursos de Comunicação e Publicidade e no meio empresarial. No mercado nacional, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, há muitas mulheres que ocupam cargos de direção, de planejamento ou na produção gráfica. No Ceará não, o mercado de publicidade ainda é muito tímido.

O POVO - E na área de criação?
Pedrina de Deus - Na área de criação ainda são poucas mulheres que atuam aqui no Ceará. A participação majoritária dos homens em espaços ditos mais valorizados do mercado de trabalho é inegável. A mulher tem uma participação pequena, cerca de 20%, na área de criação das agências de propaganda. A criação é o lugar de maior ``glamour`` do mercado publicitário e entrar neste espaço masculino sempre é uma luta feroz.

O POVO - E em que área a senhora atuou quando entrou no mercado publicitário?
Pedrina de Deus - Há 36 anos, quando comecei a trabalhar como redatora, em Brasília, o ambiente da criação era infernal. As conversas e o vocabulário eram de palavrões, brincadeiras machistas grosseiras, estereótipos, preconceitos, elitismo, narcisismo. Este fato associado a um volume de trabalho que entrava pela madrugada afastava muitas mulheres do setor de criação. Hoje, este ambiente mudou, já passou por um verniz mais civilizado, mas as mulheres continuam sendo minoria.

O POVO - Que mulheres a senhora destaca na publicidade cearense?
Pedrina de Deus - Com certeza vou esquecer muitas mulheres com relevantes trabalhos no mercado publicitário cearense, mas puxando pela memória dá para lembrar de publicitárias marcantes em diversas áreas, como Aninha Cançado, Eliziane Colares, Denise de Castro, Gina Fiúza, Ana Lúcia Rocha, Simone Guedes, Luciene Alves, Daniele Vasconcelos, Ana Santos, Ilina Mamede, e Lú Rondon.

O POVO- Como a senhora vê o uso da imagem feminina na publicidade?
Pedrina de Deus - Essa é uma discussão antiga. Quando entrei na publicidade, eu colecionava propagandas com a imagem feminina, então quando eu olho para os meus arquivos e para a publicidade hoje, eu percebo que houve um avanço, que eu diria da água para o vinho. A sociedade ainda é majoritariamente preconceituosa, racista, elitista e a propaganda reflete este modo de pensar. Nos meus arquivos tenho uma coletânea de anúncios onde a imagem feminina é da mãe, doméstica, gostosona, objeto de uso e abuso. No ano passado, uma agência do Ceará que fez um anúncio associando a mulher a uma égua e ainda ganhou prêmios. Essa mentalidade foi premiada. Mas a luta continua. Ainda há um percurso muito grande a ser feito neste caminho de mudanças.

O POVO - De modo geral, o que mudou nesses 36 anos quanto à forma de fazer publicidade?
Pedrina de Deus - Muito mudou devido às novas tecnologias. Nós quebramos vários preconceitos. Superamos alguns tabus de egocentrismo, como na área de criação. E superamos preconceitos quanto à elitização dos publicitários. Hoje já não é mais assim.

O POVO - Quais as principais carências do mercado publicitário cearense?
Pedrina de Deus -O que nos falta principalmente é um mercado empresarial em condições de crescer profissionalmente. Temos boas agências, grandes talentos, organização, atualização, e potencialidade de anunciantes. Mas falta um mercado profissional para a comunicação.

O POVO - Por que isso ocorre?
Pedrina de Deus - Os empresários cearenses vivem desafios gerados pelos seus pontos de pressão que levam a sua comunicação para sétimo ou oitavo plano na escala de comercialização. E se não há disponibilidade orçamentária para uma comunicação profissional, não há mercado profissional para a comunicação. Quando não há verba é porque não houve planejamento.

O POVO - E que mudanças precisam ser feitas?
Pedrina de Deus - Precisa mudar a maneira que os empresários formam seus preços. Muitos empresários formam seus preços olhando para o produto, sem considerar suas necessidades de expansão, de profissionalização e de investimentos. E o investimento de comunicação acaba saindo do capital de giro por isso gera ansiedade. Na correta formação de preços estarão contidos seus investimentos incluindo o de comunicação.

O POVO - Que áreas da publicidade a senhora aponta como mais promissoras para os próximos anos?
Pedrina de Deus - Mídia e Atendimento. Os próximos anos serão implacáveis: quem não fizer poeira vai comer poeira. Eficácia só acontece com a informação e estas são as áreas de uma agência que detém a informação. O futuro do planejamento é o seu fim. Essas duas áreas terão de pensar como planejamento, deixando de ser áreas de balcão e passar a ser áreas analíticas, de interpretação de fatos, de negociação, de visão estratégia, de conhecimento macroeconômico. E quando isso ocorrer, o planejamento morre.

O POVO - Que cursos de capacitação, especialização ou pós-graduação a senhora indica para quem deseja entrar nessas áreas?
Pedrina de Deus - O básico é: comportamento de consumo; economia em micro, pequeno e grande mercados; negociação em compra e venda de serviços; relacionamentos interpessoais em negociação; formação de preço além de todos os que envolverem as atividades empresariais de sua carteira de clientes.


(*) Pedrina de Deus é graduada em Comunicação Social, e pós-graduada em Marketing e em Psicopedagogia. Antes de Fortaleza atuou como publicitária em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.

2 comentários:

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

Ótimo blog continuem assim!
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