25 de novembro de 2008

Mais Um Dia Disso e Daquilo

Dia 20/11. Dia da Consciência Negra, feriado no Rio de Janeiro. Em vez de animada, estou exausta, pois trabalhei até a madrugada para adiantar os trabalhos, justamente por causa do dia de folga. Ironicamente, no dia em que eu devia estar descansada, me sentia como um zumbi. Não o líder, mas a metáfora.

Só hoje, com a cabeça mais descansada, me bateu um desconforto. Se alguns brincam dizendo que nunca viram enterro de anão e cabeça de bacalhau, então eu falo sério: e Atendimento negro, já viu? Não, não diga que é por falta de publicitários negros, que a coisa vem desde a universidade, que é preciso política de cotas e blá-blá. Convivi e convivo com vários publicitários negros, portanto eles estão entre nós. Só que não dividimos o mesmo departamento. E na Criação também não os vejo. Eu os encontro no Tráfego. Ou são operadores. Ou produtores gráficos. Muitas vezes já ouvi deles mesmos a brincadeira: “aqui é a senzala”, referindo-se ao trabalho em demasia, a ter que cumprir o que os outros determinam. Brincamos de escravidão sem nos dar conta?

Pois eis aí um “caso-verdade” acontecido há uns tantos anos. A agência fazia seleção para assistente de Atendimento. Dentre os candidatos, a que mais estava qualificada para a função era uma moça, que por acaso era negra. A despeito de ser a melhor candidata, sua contratação esbarrou em ponderações do tipo: “o cliente pode ser racista” e “ela é feia”. Deu pra entender? É claro que em tempos "politicamente corretos" ninguém iria assumir-se racista, então ficou mais fácil transferir para o cliente a responsabilidade pela não contratação. Ou usar um critério subjetivo para a avaliação que não fosse a qualificação profissional e a boa apresentação (entendendo-se aqui, claro, não a beleza, mas saber se portar, se vestir adequadamente etc.), coisas que efetivamente a moça possuía. No final, depois de muita argumentação e empenho, a moça foi contratada. O resto é resto.

O fato é que na hierarquia das agências há mesmo setores cujos profissionais estão mais longe da vista dos clientes. Seria coincidência os publicitários negros estarem justamente lá?

3 comentários:

Douglas disse...

Olá Kátia, é muito desagradavel saber que essa distinção aconteça em nossa área. Felizmente na agencia que trabalho temos um exemplo contrário. Temos o Paulinho que é negro e um excelente profissional!
Deixo meus parabens ao trabalho que ele desempenha.

Anônimo disse...

Kátia,

Parabéns pelo texto!
Desculpe a demora em responder.

Kátia, hoje, atuou na área de Planejamento, mas algumas vezes desempenho o excelente papel de Atendimento.

Com 4 anos de trabalho já passei por inúmeras entrevistas, mas existe uma que ficou registrada na minha memória, que infelizmente não dá para esquecer.

No último ano da faculdade, em 2005, participei de um processo (de estágio) para Atendimento em uma média agência de São Paulo. E no bate papo com um dos diretores, depois de uma hora de conversa, o cara me peguntou:

Por que Atendimento? Por que você não vai jogar bola?

"Por uma certa inocência respondi que eu não gostava de futebol (como realmente eu não gosto)".

Foi aí que ele emendou uma outra: Por que você não vai cantar samba?

"Na hora, para demosntra o interesse e o gas que eu estava... Eu nem me liguei... Eu só queria mostrar que eu poderia estar ali para realizar um puta trabalho... Só percebi tudo isso depois no elevador".

Kátia é triste ver e viver isso, mas isso existe.

Obrigado pelo espaço.

Um grande abraço,

David Bispo
dvdbispo@ig.com.br

P.S.: "Não olhe o que é, mas sim o que pode vir a ser".

Paulinho disse...

Obrigado Douglas! Me bateu aqui uma certa emoção, haha!....

é como dizem... no Brasil o racismo é o mais cruel de todos. É aquele que veste uma máscara do tamanho do bolso da elite...

Mas graças a deus, mesmo tendo "uma corzinha a mais" ele me permitiu ser atendimento... nunca fui constrangido ou passei por alguma situação explícita assim...
Mas tenho certeza que tive a sorte de poucos...